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domingo, 16 de dezembro de 2012

Leia com Espírito

A caminho de casa, entro em uma lanchonete para tomar um café com leite junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A ansiedade me assusta.

Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do "perfeito" ou "imperfeito" no cotidiano de cada ser humano. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo especial do conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava a circunstância, ao episódio. Nesta perseguição pelos fatos, por flagrante de esquina, poderia ser nas palavras, ou num acidente doméstico, me torno simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café com leite, enquanto o verso do poeta se repete na minha lembrança: "assim eu queria meu ultimo poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar longe de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma grande história.

Ao fundo da lanchonete um casal de aparência simples, acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, no jeito simples de conversar, deixa reparo na presença de uma garotinha de seus dois a quatro anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido simples, que sentou-se também à mesa: mal conseguia balanças as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três sere tímidos que compõe em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Observo, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los mais atentamente. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, segura da naturalidade da sua presença ali. Ao meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

O homem atrás do balcão apanha o pedaço de bolo com a mão, larga-o no pratinho - bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A garotinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começar a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforo, e espera,.A filha aguarda também, atenta com os olhos brilhando. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando bem baixinho, a que os pais se juntam, discretas. " Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A garotinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - arruma a fita no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai no colo. O pai corre os olhos pela lanchonete, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça baixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num SORRISO.

"Assim eu queria meu último texto: que fosse puro como esse sorriso"


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